quinta-feira, 23 de junho de 2011

Inverno repentino


No horizonte distante a claridade sumia e dava lugar a uma imensa nuvem negra! Aos poucos a temperatura parecia despencar e os pingos que inicialmente eram modestos se tornaram densos e fortes.    A chuva caía e a dona de casa tirava as roupas do varal. As crianças se divertiam em meio a poças de água e lama atrás da bola fugidia e veloz. Senhoras assistiam ao temporal das janelas entreabertas: corações cheios de regozijos pela brisa soberana que viria depois. As nuvens dissipavam-se sobre a cidade. Pára raios estáticos esperavam em vão por uma descarga mais forte. Alunos e consumidores aguardavam silenciosos em frente a estabelecimentos comerciais pelo cessamento do temporal. Trovejou! Despertaram-se os pensamentos em relação a si e ao próximo! Como somos ás vezes tão frios e calculistas sem necessidade! A chuva caí chorando. Existe alguém que chora quando perde alguma coisa com a chuva. A cidade reclama e o campo agradece. A natureza é sábia e nós em nossa pretensão ridícula de sempre querer sobrepujar este saber. Nós adultos com medo e as crianças em  sua candura riem dos pingos grossos que molham a farda do guarda de trânsito; outras se divertem com barquinhos de papel que deslizam pela enxurrada abaixo ganhando um destino incerto.  Faz frio. O nosso inverno não tem a poesia congelada de outros lugares que caem nevascas ou flocos de neve, mas é uma estação que nos convida a introspecção do que podemos fazer. Por minutos entramos em um estado de reflexão sobre nós e sobre o tudo que nos rodeia. Tentamos sermos senhores quando na verdade não passamos de minúsculos servos engrandecidos apenas em nossa presunção e vaidade. Venenos mortais! A chuva começa a diminuir e aos poucos a rotina é retomada. Os pingos rorejam o meu jardim de rosas cândidas! As últimas horas do dia parece roçarem os lábios da noite. As crianças não se importam continuam em meio a muita lama e poças d’água. A bola é a perseguida da vez; salta, quica e se perde pela linha de fundo. A dona de casa toma um cafezinho observando as crianças incautas que podem pegar uma doença, mas na verdade em seu íntimo ela daria tudo para estar naquele meio molhado e enlameada correndo uma picula e se deliciando com o frescor sadio deixado pela chuva. O guarda de trânsito devolve a bola e a alegria aos meninos. O inverno chegou e as pessoas começam a fazer planos para esta estação fria. As rosas do meu jardim não falam, mas exalam um perfume presenteando a todos indistintamente com a sua generosidade cercada de olhares não tão agradecidos como deveriam ser.

Jucênio Cordeiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário