É cedo; manhã fria de domingo e os operários da
Liga se juntam aos poucos voluntários para dar início à metamorfose do
lugar que será ocupado pelos "gladiadores" do mundo do futebol
amador ou como todos costumam a falar: futebol de várzea. Aos poucos o local vai ficando apresentável e
o corpo e o rosto sujo de cal mostra o
quanto a seriedade e abnegação também entrará em campo ajudando a mudar aquele simplório campo para a configuração
de uma verdadeira arena. Aos poucos chegam os atletas sem muita
pompa, mas com muito futebol e sonhos na bagagem. Aqui todos sonham:
O torcedor sonha com o título; o comerciante sonha com boas
vendas e
um freezer novo. E afinal o que sonha o pessoal da organização do
campeonato? Será que eles têm tempo e direito
pra isso? Enfim, tudo pronto. Hoje serão
dois jogos e eles chegam: o público. Eles também têm sonhos. Apita o árbitro e a bola rola; fora do
campo as apostas, provocações e também os sonhos se misturam. Os olhos atentos seguem
cada lance. O sol aparece entre nuvens. Hoje deu muita gente. O
jogo é bem disputado. Apita o árbitro e desta vez ninguém ganhou. A equipe da
Liga remarca o campo para a segunda partida. Recomeça tudo de novo. A partida
segue, mas o gol não sai e dá tempo para
o garoto do placar e os gandulas sonharem que um dia eles também
jogarão neste campeonato. Atentos, os seguranças esquecem os seus sonhos por um
largo lapso de tempo. Sai o gol.
Finalmente! E entre gritos de alegria e de protesto segue a partida. Tudo é
filmado e registrado tanto pelas lentes
dos nossos colaboradores como pela
memória das pessoas presentes que um dia
contarão aos netos como era este campeonato. Fim de mais uma partida. O time
visitante venceu. O árbitro lavra a súmula. Aos poucos todo aquele aparato que
transformou um humilde campo em um lugar de devaneios, risos e lamentações é
retirado e acondicionado no canto ermo de um armazém. O público presente
comenta, ri, bebe uma cerveja bem gelada e degusta um espetinho conversando com
novas e velhas amizades. Gente bonita, galera
alegre que mostra com o seu sorriso os intermináveis minutos
de acréscimos após um jogo de futebol amador em seu bairro. Realmente aqui um
domingo com campeonato é bem diferente.
Jucênio

