Olhos
esbugalhados, respiração presa, o corpo parece ir junto...de repente o
grito...a alegria. Sem perceber abraçamos quem vier pela frente. Vibramos e
cantamos. Que loucura é essa que nos deixa por instantes longe do mundo real. Ensandecidos
atingimos os limites da razão. Dedos
cruzados e rezas! Mãos para o ar, punhos fechados! Gritos de guerra; de alívio,
de “olé”! Ondas humanas que se agitam de um lado para o outro comemorando
quando aquele pequeno objeto esférico toca as redes. Agito geral! Xingamentos
que até nós mesmos duvidamos do que estamos pronunciando de forma tão mordaz.
Ensaiamos as jogadas e em vão denunciamos
onde está o adversário livre e perigosamente ameaçador da nossa meta. Não
concordamos com as atitudes do detentor das regras e do comandante geral da
equipe então lançamos corrosivamente termos pejorativos como “ladrão” e “burro”
para mostrar a nossa instisfação com as resoluções decididas por ambos. Bebemos
e comemos muitas vezes de forma sôfrega o que levamos a boca. Adrenalina,
adrenalina é só o que corre nas veias.
Silêncio, respiração ofegante, olhos atentos e...grito de alívio! Tudo isso por
causa de um simples chute na “gorduchinha” que estava sob a marca do cal e a
mesma balançou a rede adversária! Dança
e grito de guerra ecoa pelo local que acomoda tão imensa massa humana.
Colorido, fumaça, bandeiras e muito barulho.
De repente um misterioso silêncio... O adversário está indo para o
ataque e os gritos de alegria instantaneamente se transformam em vaias. Os
defensores combatem e novamente volta o brado de felicidade que aquele simples
objeto esférico causou outrora quando ultrapassou a linha do alvo oponente. Onde estamos com a cabeça!
Esquecemos por intermináveis segundos
até de quem gostamos de verdade. Uma estranha amnésia nos invade e perdemos o
contato com tudo o que antes nos afligia e incomodava. Um estado de torpor nos
ilude e nos alegra neste recinto cercado por
tantas pessoas estranhas, mas que simultaneamente se assemelham aos
nossos gostos e preferências. O ponteiro do relógio é implacável e os segundos
parecem levar um século pra atingir um minuto. Enfrentamos chuva, sol, geada,
garoa, ar seco e luar, pois, tudo parece
lucro. Daqui a alguns minutos a noite
vai virar dia e aos empurrões vamos deixando aquele lugar que foi palco da
nossa alegria. Lá ficaram registrados pequenos fragmentos da nossa paixão:
risos, xingamentos, incentivos, estratégias e uma doce, porém efêmera, sensação
de felicidade. Os momentos marcantes desta noite(quase dia) não esqueceremos tão rápido. Hoje valeu a pena;
amanhã não o saberemos. Entre vitórias, resultados iguais ou derrotas
descobrimos que somos loucos e apaixonados por este lugar onde sentados ou de
pé lançamos indistintamente as nossas alegrias
e as nossas mágoas. Aqui temos o
bálsamo provisório dos nossos sofrimentos e a ilusão de termos saindo ganhando
com um divertimento tão volátil como as névoas diante dos refletores. Só quem
sentiu de perto o calor de uma torcida sabe o quanto representa a paixão por
este esporte disputado por alguns guerreiros que se digladiam atrás deste
perseguido objeto em forma esférica que vai de um lado para o outro acompanhado atentamente de longe por um bando de loucos uniformizados e sem o
mínimo compromisso com o mundo real.
Jucênio