Abolir quer
dizer revogar, extinguir eliminar e etc. Passado mais de cento e vinte anos
percebe-se que as “chicotadas nos lombos” foram substituídas por outras mais
agressivas como a supressão total ou parcial dos direitos e igualdade dos seres
humanos. Sabemos que a vida moderna é competitiva e quando o outro lado não
joga limpo, a vitória é quase impossível. As oportunidades são colocadas de
modo excludente e o espaço parece minguar quando existe a disputa por qualquer
vaga. Onde está o pensar livre e a democracia? Cadê os direitos devidos desde séculos
passados. A dívida não paga com o dinheiro ainda permanece em aberto, pois o cerceamento
dos direitos continua a produzir a ausência das vagas no campo de trabalho e
nas faculdades. A cor da pele é critério de seleção para o preenchimento do
espaço concorrido. Deixaram como herança apenas as migalhas e os restos da
gamela, tal qual era na “saudosa” senzala. A rica cultura africana é
reconhecida e sua aceitação deu-se devido à mistura de raças que ajudou a
formar o povo que aqui vive. O preconceito latente debocha de um grupo étnico
que fez do trabalho a sua marca registrada... A ferro e fogo (como animais). A
luta dos afro-descendentes são reminiscências de um erro irreparável dos
invasores que, sem escrúpulos, arrancou do solo original um povo que feliz
cantava, dançava e vivia em contato direto com a natureza! O odor maligno e
escravocrata impregnou a atmosfera com uma extensa névoa de crueldade e
covardia sob a bandeira do progresso. O princípio da inferiorizarão da raça
negra que não atendia ao modelo da civilização européia gerou vários
fundamentos preconceituosos que perduram até hoje. Podemos enumerar várias
situações discriminatórias atuais desde a disponibilização apenas de vagas para
trabalhos secundários com remunerações ínfimas até o “famoso” ato de atirar
bananas em atletas negros que participam de qualquer modalidade esportiva e, em
especial, o futebol. Os que conseguem sobressair a essa situação em sua maioria
passaram ou passam por alguma situação vexatória. A luta é grande e algumas conquistas foram
alcançadas (a ferro e fogo) de forma guerreira como os nativos das selvas
africanas caçam leões e tigres! A criação de leis inibe, mas não resolve o
problema por que as punições às vezes permanecem nas entrelinhas da falta de
respeito e do protecionismo excessivo aos infratores. Sentado e com as mãos no
queixo com a cútis negra iluminada pelo sol, ele vê o seu passado doloroso e ensanguentado.
Sente, no presente, a discriminação e o preconceito racial lhe tirar o fôlego e
a vontade de viver. Olha com incerteza para o futuro onde a falta de
perspectiva acusa sonoramente a usurpação dos direitos. O som banzeiro,
guerreiro e nostálgico que vinha do interior da senzala lhe trazem boas
recordações da terra de origem e o cheiro do azeite e da pimenta malagueta
aromatizam a cultura deste povo que aprendeu a fazer da luta o seu “ganha
pão”...
Jucênio Cordeiro
Nenhum comentário:
Postar um comentário