quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cativeiros Modernos


Abolir quer dizer revogar, extinguir eliminar e etc. Passado mais de cento e vinte anos percebe-se que as “chicotadas nos lombos” foram substituídas por outras mais agressivas como a supressão total ou parcial dos direitos e igualdade dos seres humanos. Sabemos que a vida moderna é competitiva e quando o outro lado não joga limpo, a vitória é quase impossível. As oportunidades são colocadas de modo excludente e o espaço parece minguar quando existe a disputa por qualquer vaga. Onde está o pensar livre e a democracia? Cadê os direitos devidos desde séculos passados. A dívida não paga com o dinheiro ainda permanece em aberto, pois o cerceamento dos direitos continua a produzir a ausência das vagas no campo de trabalho e nas faculdades. A cor da pele é critério de seleção para o preenchimento do espaço concorrido. Deixaram como herança apenas as migalhas e os restos da gamela, tal qual era na “saudosa” senzala. A rica cultura africana é reconhecida e sua aceitação deu-se devido à mistura de raças que ajudou a formar o povo que aqui vive. O preconceito latente debocha de um grupo étnico que fez do trabalho a sua marca registrada... A ferro e fogo (como animais). A luta dos afro-descendentes são reminiscências de um erro irreparável dos invasores que, sem escrúpulos, arrancou do solo original um povo que feliz cantava, dançava e vivia em contato direto com a natureza! O odor maligno e escravocrata impregnou a atmosfera com uma extensa névoa de crueldade e covardia sob a bandeira do progresso. O princípio da inferiorizarão da raça negra que não atendia ao modelo da civilização européia gerou vários fundamentos preconceituosos que perduram até hoje. Podemos enumerar várias situações discriminatórias atuais desde a disponibilização apenas de vagas para trabalhos secundários com remunerações ínfimas até o “famoso” ato de atirar bananas em atletas negros que participam de qualquer modalidade esportiva e, em especial, o futebol. Os que conseguem sobressair a essa situação em sua maioria passaram ou passam por alguma situação vexatória.  A luta é grande e algumas conquistas foram alcançadas (a ferro e fogo) de forma guerreira como os nativos das selvas africanas caçam leões e tigres! A criação de leis inibe, mas não resolve o problema por que as punições às vezes permanecem nas entrelinhas da falta de respeito e do protecionismo excessivo aos infratores. Sentado e com as mãos no queixo com a cútis negra iluminada pelo sol, ele vê o seu passado doloroso e ensanguentado. Sente, no presente, a discriminação e o preconceito racial lhe tirar o fôlego e a vontade de viver. Olha com incerteza para o futuro onde a falta de perspectiva acusa sonoramente a usurpação dos direitos. O som banzeiro, guerreiro e nostálgico que vinha do interior da senzala lhe trazem boas recordações da terra de origem e o cheiro do azeite e da pimenta malagueta aromatizam a cultura deste povo que aprendeu a fazer da luta o seu “ganha pão”...
  
Jucênio Cordeiro

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