quarta-feira, 25 de julho de 2012

Rotina suburbana



Subindo ladeiras não tão históricas como as do Pelourinho, segue o menino com a caixa de picolé, atravessa a rua e aguarda pacientemente o ônibus como se esperasse pelo futuro.  Caminhando descalços por entre as ruas  esburacadas os garotos chegam ao local do “espetáculo” e o preparam com riscos de gesso e gol com apenas duas pedras por meta. O sonho invade aquelas alegres crianças que temporariamente encarnam os grandes e multimilionários astros do futebol. Meninas caminham em grupos conversando como mulheres adultas e detentoras do saber. Do alto laje sobe uma “arraia” colorida que baila na imensidão azul anil. Senhoras voltam do mercado com passos ligeiros e seguros, pois, o dever doméstico lhe impõe a ditadura do meio dia. A silenciosa  manhã denuncia que muitos dos moradores estão no centro da cidade no seu afã diário ou em busca de emprego e de conhecimentos que lhes proporcione a realização dos seus desejos. O bêbado canta um reggae de Bob Marley e  cambaleia por entre ruas e becos. Cães ladram quando passa algum automóvel e a poeira deixada pelo rastro dos pneus suja e  turva a minha vidraça. Comerciantes fazem promoções em cartazes com erros ortográficos. Crianças voltam da escola com expressões alegres;  travessas,  correm uma atrás das outras e  fazem rir os mais velhos. O tempo parece confiar a estes pequenos seres a chave da felicidade. As casas dispostas em cima das encostas nem de longe sonham em ser  "arranhar os céus" e suas fachadas sem reboco denuncia um tipo de  cultura empobrecida e esquecida. A violência ganha clima de deboche  e  vira superprodução na TV. Solitário, um homem tem no  dono do  bar o seu mais sincero confidente e psicólogo. Cai  a tarde e o sol irradia a sua força para todos indistintamente. O moleque afrouxa a linha e faz flutuar  o seu brinquedo preferido. No alto de uma construção o pedreiro une tijolo com tijolo  formando um mosaico de cor avermelhada. Buracos nas ruas acusam o quanto o descaso é  a marca registrada deste lugar. O  crepúsculo  sorrateiramente encobre  a paisagem desordenada dos  menos favorecidos. O ônibus chega lotado da estação. O garoto vendedor de picolé desce cansado e contando as moedas para comprar o pão. A distância entre o subúrbio e o centro da cidade parece  triplicar devido aos intermináveis  engarrafamentos ao longo do trajeto. A novela exibe a hipocrisia de uma humanidade solapada pelos seus próprios conceitos errados! Jovens jogam futebol à noite e o som altissonante dO  porta malas de um carro  quebra o silêncio da rua. A lua gentilmente ilumina a frondosa amendoeira que durante o dia alegrou a muitos com  sua sombra. A maioria  dorme  e  a  paisagem tosca é encoberta pela noite voraz envolve e faz o menino vendedor de picolé sonhar com dias melhores. 

Jucênio
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário