Subindo ladeiras não tão
históricas como as do Pelourinho, segue o menino com a caixa de picolé, atravessa
a rua e aguarda pacientemente o ônibus como se esperasse pelo futuro. Caminhando descalços por entre as ruas esburacadas os garotos chegam ao local do
“espetáculo” e o preparam com riscos de gesso e gol com apenas duas pedras por
meta. O sonho invade aquelas alegres crianças que temporariamente encarnam os
grandes e multimilionários astros do futebol. Meninas caminham em grupos
conversando como mulheres adultas e detentoras do saber. Do alto laje sobe uma
“arraia” colorida que baila na imensidão azul anil. Senhoras voltam do mercado
com passos ligeiros e seguros, pois, o dever doméstico lhe impõe a ditadura do
meio dia. A silenciosa manhã denuncia
que muitos dos moradores estão no centro da cidade no seu afã diário ou em
busca de emprego e de conhecimentos que lhes proporcione a realização dos seus
desejos. O bêbado canta um reggae de Bob Marley
e cambaleia por entre ruas e becos. Cães ladram quando passa algum
automóvel e a poeira deixada pelo rastro dos pneus suja e turva a minha vidraça. Comerciantes fazem promoções
em cartazes com erros ortográficos. Crianças voltam da escola com expressões
alegres; travessas, correm uma
atrás das outras e fazem rir os mais
velhos. O tempo parece confiar a estes pequenos seres a chave da felicidade. As
casas dispostas em cima das encostas nem de longe sonham em ser
"arranhar os céus" e suas fachadas sem reboco denuncia um tipo
de cultura empobrecida e esquecida. A violência ganha clima de
deboche e vira superprodução na TV. Solitário, um homem tem
no dono do bar o seu mais sincero confidente e psicólogo. Cai a tarde e o sol irradia a sua força para todos
indistintamente. O moleque afrouxa a linha e faz flutuar o seu brinquedo preferido. No alto de uma
construção o pedreiro une tijolo com tijolo formando um mosaico de cor
avermelhada. Buracos nas ruas acusam o quanto o descaso é a marca
registrada deste lugar. O crepúsculo
sorrateiramente encobre a paisagem desordenada dos menos
favorecidos. O ônibus chega lotado da estação. O garoto vendedor de picolé
desce cansado e contando as moedas para comprar o pão. A distância entre o
subúrbio e o centro da cidade parece triplicar devido aos
intermináveis engarrafamentos ao longo do trajeto. A novela exibe a
hipocrisia de uma humanidade solapada pelos seus próprios conceitos errados!
Jovens jogam futebol à noite e o som altissonante dO porta malas de um carro quebra o silêncio da rua. A lua
gentilmente ilumina a frondosa amendoeira que durante o dia alegrou a muitos
com sua sombra. A maioria dorme
e a paisagem tosca é encoberta pela noite voraz envolve
e faz o menino vendedor de picolé sonhar com dias melhores.
Jucênio
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