quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Frieza (Editorial 25/08/2013)

O vento sacode a placa de propaganda; em vão as folhas tentam resistir... a queda é brusca e certa. Num canto escuro um morador de rua treme na gélida madrugada da metrópole! Em seu íntimo algo quer aquecer, brilhar, elevar-se!! O frio causado pelo orgulho, pela inveja, pelo ódio e pela presunção impede a ascensão da minúscula chama. Os minutos impiedosamente arrastam-se e a aurora não se faz presente. Desvairada madrugada! Lágrimas inundam a face e aliviam o exausto coração.  Voluntários trouxeram os cobertores, a sopa e as palavras de apoio. Desconfiados eles seguram ávidamente o que lhes são ofertados. Parece que os cobertores e a sopa são mais preferidos do que as palavras ditas por eles. Animais domésticos procuram abrigo em meio a resistentes ruínas circundadas por lixo e caos.  Nem ônibus, nem táxi e muito menos algum transeunte. Dormem os cidadãos indiferentes ao que acontece além das suas janelas. Em nossos lares sentimos frio e somos logo aquecidos. A mãe zelosa levanta e checa se estão todos devidamente agasalhados. Um  uivo rasga a noite e traz um leve arrepio...É o vento que adentra pela  viela com sua majestosa tranquilidade. Ele é o rei nesta “glacial”  noite de inverno! Nas encostas a preocupação e o arrependimento causam insônia aos moradores de um barraco encravado à  beira do abismo. A enxurrada desliza ladeira abaixo e vai solapando o solo e levando o descaso, o medo, a frustração e a poluição gerada pelos próprios moradores daquele insalubre ambiente. Automóveis passam enlouquecidos e derramam neon  sobre a poça inerte. Os pneus espadanam as águas para o ar. Encolhida a ave de rapina espreita a sua incauta caça que insiste em não aparecer.  A temperatura despenca bruscamente e queima o lombo desnudo que treme debaixo de uma marquise qualquer; para uns os cobertores são insuficientes e para outros são ausentes! São três horas da madrugada e a chuva é fina e insistente.  Ela e o frio estão e estarão sempre no lugar certo.  Os homens inventaram para si um jeito inusitado de sofrer! Será que já paramos para pensar sobre tudo isso? Será que somos mesmos resistentes além de nosso humilde e aquecido lar?  Um raiar do novo dia se principia. A madrugada foi longa e pareceu não ter fim. O dia vai clareando em meio à lama e chuva fina. Os olhos vão abrindo-se e procurando no firmamento a esperança por dias melhores...Talvez por dias mais ensolarados e com mais calor humano. E eis que surge um arco-íris com cores reluzentes e alegres e mostra a todos que resistiram a esta madrugada congelante que  o Criador sempre nos agracia com dádivas as quais nunca soubemos dar o merecido valor!

Jucênio

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