O vento sacode a placa de
propaganda; em vão as folhas tentam resistir... a queda é brusca e certa. Num
canto escuro um morador de rua treme na gélida madrugada da metrópole! Em seu
íntimo algo quer aquecer, brilhar, elevar-se!! O frio causado pelo orgulho,
pela inveja, pelo ódio e pela presunção impede a ascensão da minúscula chama.
Os minutos impiedosamente arrastam-se e a aurora não se faz presente.
Desvairada madrugada! Lágrimas inundam a face e aliviam o exausto coração. Voluntários trouxeram os cobertores, a sopa e
as palavras de apoio. Desconfiados eles seguram ávidamente o que lhes são
ofertados. Parece que os cobertores e a sopa são mais preferidos do que as
palavras ditas por eles. Animais domésticos procuram abrigo em meio a
resistentes ruínas circundadas por lixo e caos.
Nem ônibus, nem táxi e muito menos algum transeunte. Dormem os cidadãos indiferentes
ao que acontece além das suas janelas. Em nossos lares sentimos frio e somos
logo aquecidos. A mãe zelosa levanta e checa se estão todos devidamente
agasalhados. Um uivo rasga a noite e
traz um leve arrepio...É o vento que adentra pela viela com sua majestosa tranquilidade. Ele é
o rei nesta “glacial” noite de inverno!
Nas encostas a preocupação e o arrependimento causam insônia aos moradores de
um barraco encravado à beira do abismo.
A enxurrada desliza ladeira abaixo e vai solapando o solo e levando o descaso,
o medo, a frustração e a poluição gerada pelos próprios moradores daquele
insalubre ambiente. Automóveis passam enlouquecidos e derramam neon sobre a poça inerte. Os pneus espadanam as
águas para o ar. Encolhida a ave de rapina espreita a sua incauta caça que
insiste em não aparecer. A temperatura
despenca bruscamente e queima o lombo desnudo que treme debaixo de uma marquise
qualquer; para uns os cobertores são insuficientes e para outros são ausentes!
São três horas da madrugada e a chuva é fina e insistente. Ela e o frio estão e estarão sempre no lugar
certo. Os homens inventaram para si um
jeito inusitado de sofrer! Será que já paramos para pensar sobre tudo isso?
Será que somos mesmos resistentes além de nosso humilde e aquecido lar? Um raiar do novo dia se principia. A madrugada
foi longa e pareceu não ter fim. O dia vai clareando em meio à lama e chuva
fina. Os olhos vão abrindo-se e procurando no firmamento a esperança por dias
melhores...Talvez por dias mais ensolarados e com mais calor humano. E eis que
surge um arco-íris com cores reluzentes e alegres e mostra a todos que
resistiram a esta madrugada congelante que
o Criador sempre nos agracia com dádivas as quais nunca soubemos dar o
merecido valor!
Jucênio
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