quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Saudosa fonte (editorial 11/08/2013)



 

Saudade do tempo em que jogávamos bola descalços sem preocupações, a trave era de embaúba e o campo não era marcado com a cal, mas o efeito era o mesmo de hoje. Os garotos tingiam as camisas com tintol e faziam os números com tinta a óleo. Cada partida parecia uma final de campeonato. Os primeiros chutes, os gols e a poeira que subia eram motivos para alegria de cada espectador. Não tinha hora de acabar e a molecada corria solta como se fosse arrebatada por sentimento de liberdade bem forte. O sol escaldante irradiava sem pena sobre os minúsculos atletas. Um banho na bica para refrescar! Um banho de cuia dentro de campo para alegrar a torcida. A bola não era de couro e sim de vinil ou de plástico:  Chuveirinho, Canarinho ou Dente de leite eram as marcas mais famosas.  Armaram um torneio e meu amigo foi indicado para ser o árbitro: quantos xingamentos  ouviu e mesmo assim continuávamos velhos amigos. O time da outra rua ganhou o torneio e no fim acabamos todos juntos na mesma festa. Muitas árvores ao redor do campo  e lá no fundo a fonte deixava generosamente correr mansas as  águas;  a esmo seguiam sem se preocupar com o destino final. Lagartos, gafanhotos e passarinhos existiam de montão. A meninada chegava  e o  tempo estava fechado ninguém se importava com as nuvens que se formavam sorrateiramente e a bola rolava mesmo com os gritos das mães zelosas que longe advertiam em vão os seus filhos. Cada um sabia o que fazer dentro de campo e fora dele a surra não intimidava o  prazer de um baba enlameado e encardido. O toró caía e os grossos pingos da chuva pareciam um energético natural sobre a gurizada em transe. Na verdade era mais um convite do que um estorvo. Ao final de uma tarde fria  terminava o baba. Todos iam para suas casa sentindo ainda um gosto de” quero mais”. Sonhávamos com as jogadas,  os gols e tudo o que nos faziam alegres neste momento mágico e entretido pelo prazer e glória. Não importavam as queixas, as juras de castigos, pois, lá estávamos de novo correndo atrás da “redonda” e buscando acertar a forquilha das embaúbas ou bambus. Será que hoje o prazer de divertir-se é o mesmo ou o que vivemos foi uma época única  para nós poucos privilegiados? A certeza é que esses raros e intermináveis momentos o qual fomos agraciados por uma natureza ainda não tão devastada e cercados por pessoas davam valor a amizade verdadeira. Era um tempo de corajosos garotos que não temiam apanhar, que trabalhavam na tenra idade para ajudar nas despesas do lar. Carregava-se lata dá água na cabeça e a esperança escorria em cada gota de suor derramado. Estudava-se com mais afinco embora alguns não tinham a preocupação com um alvo bem definido. Enfim cada um em sua determinada época, mas quem soube viver uma infância e juventude  repletas de boas amizades e luta  tornaram-se adultos completos.   

Jucênio

Nenhum comentário:

Postar um comentário