Saudade do
tempo em que jogávamos bola descalços sem preocupações, a trave era de embaúba
e o campo não era marcado com a cal, mas o efeito era o mesmo de hoje. Os
garotos tingiam as camisas com tintol e faziam os números com tinta a óleo. Cada
partida parecia uma final de campeonato. Os primeiros chutes, os gols e a
poeira que subia eram motivos para alegria de cada espectador. Não tinha hora
de acabar e a molecada corria solta como se fosse arrebatada por sentimento de
liberdade bem forte. O sol escaldante irradiava sem pena sobre os minúsculos
atletas. Um banho na bica para refrescar! Um banho de cuia dentro de campo para
alegrar a torcida. A bola não era de couro e sim de vinil ou de plástico: Chuveirinho, Canarinho ou Dente de leite eram
as marcas mais famosas. Armaram um
torneio e meu amigo foi indicado para ser o árbitro: quantos xingamentos ouviu e mesmo assim continuávamos velhos
amigos. O time da outra rua ganhou o torneio e no fim acabamos todos juntos na
mesma festa. Muitas árvores ao redor do campo e lá no fundo a fonte deixava generosamente
correr mansas as águas; a esmo seguiam sem se preocupar com o destino
final. Lagartos, gafanhotos e passarinhos existiam de montão. A meninada
chegava e o tempo estava fechado ninguém se importava com
as nuvens que se formavam sorrateiramente e a bola rolava mesmo com os gritos
das mães zelosas que longe advertiam em vão os seus filhos. Cada um sabia o que
fazer dentro de campo e fora dele a surra não intimidava o prazer de um baba enlameado e encardido. O
toró caía e os grossos pingos da chuva pareciam um energético natural sobre a
gurizada em transe. Na verdade era mais um convite do que um estorvo. Ao final
de uma tarde fria terminava o baba.
Todos iam para suas casa sentindo ainda um gosto de” quero mais”. Sonhávamos
com as jogadas, os gols e tudo o que nos
faziam alegres neste momento mágico e entretido pelo prazer e glória. Não
importavam as queixas, as juras de castigos, pois, lá estávamos de novo
correndo atrás da “redonda” e buscando acertar a forquilha das embaúbas ou
bambus. Será que hoje o prazer de divertir-se é o mesmo ou o que vivemos foi
uma época única para nós poucos
privilegiados? A certeza é que esses raros e intermináveis momentos o qual fomos
agraciados por uma natureza ainda não tão devastada e cercados por pessoas davam
valor a amizade verdadeira. Era um tempo de corajosos garotos que não temiam
apanhar, que trabalhavam na tenra idade para ajudar nas despesas do lar. Carregava-se
lata dá água na cabeça e a esperança escorria em cada gota de suor derramado. Estudava-se
com mais afinco embora alguns não tinham a preocupação com um alvo bem definido.
Enfim cada um em sua determinada época, mas quem soube viver uma infância e
juventude repletas de boas amizades e
luta tornaram-se adultos completos.
Jucênio

Nenhum comentário:
Postar um comentário