Caminhava sozinho pela recém construída Via Regional. O cheiro do asfalto novo exalava
sob o sol do meio dia e meia. Meu irmão mais velho ainda estudava no Eraldo
Tinoco e eu estava iniciando o segundo grau (atual ensino médio). Era meado da
década de 1980, o Brasil respirava os “novos ares” trazidos pelo movimento Diretas Já
e uma canção lembrava o quanto
somos tão jovens: era a Legião Urbana de Renato Russo que estava iniciando uma
carreira de sucesso que continua a encantar todos até o dia de hoje. Seguia o
meu caminho pela estrada de asfalto virgem onde poucos carros passavam. Ainda não tinha linha
de ônibus circulando e às margens de suas sinuosas curvas estava lá em cima a Escola Eraldo Tinoco e mais a frente em
outro morro estava o campo do fim de linha
de Sete de Abril. Na divisa com o bairro de Castelo Branco estava um pequeno riacho. Na última curva estava um ferro
velho. Descia por dentro de um pequeno
matagal e subia em direção a minha escola: Edvaldo Brandão Correia o seu nome e
fica em Cajazeiras IV. Andei por esse trajeto durante quase seis meses ida e
volta, mas minha mãe ficava aflita e sempre me aconselhava a não ir mais por
ele. Então, passei a fazer o trajeto de ônibus. Pegava um ônibus da empresa
Transur em frente à Padaria Oxagriã. A linha era Sete de Abril X Terminal EVA; aliás, este famigerado terminal era um grande galpão e os passageiros recém chegados eram
amontoados e ficavam a mercê da própria sorte, pois, os coletivos eram
invadidos por populares e sempre saíam superlotados com pessoas penduradas na
porta. Quando eu via aquela cena
deprimente sentia saudade da caminhada
pela Via Regional. Alguns meses depois
foi inaugurado o Terminal Nova Esperança (no mesmo lugar onde hoje está a
Estação Pirajá). Este terminal era mais amplo e
organizado, mas infelizmente a demora na fila era a mesma. O ônibus saía do terminal com o seguinte
itinerário: Brasil Gás, Castelo Branco e Cajazeiras. Ao descer no ponto eu
seguia por uma rua comprida até a escola. Ela lembrava um pouco o Afrânio
Peixoto. Meus colegas de sala eram animados e com eles aprendi a gostar do rock
nacional da Legião, Ira, Titãs, Barão Vermelho e etc. Eles
eram muito legais tanto dentro quanto fora da sala. Fiz muitas amizades,
principalmente por causa do futebol que jogávamos na quadra da escola que ficava bem ao fundo (de lá podia ver
parte da Via Regional). Estudei na sala
1º Adm. que ficava mais ou menos no segundo quarteirão. Os professores eram:
Jarmi (Administração) Emanuel (Matemática), João (Estatística),
Mizael”Sapinho”(Desenho Geométrico), Reinaldo(Português), José (Inglês) entre
outros. Quando tinha o horário vago a turma ficava no corredor cantando e batendo na palma da
mão. Eu sempre fui mais acanhado para cantar e até hoje não tenho a menor
vocação para isso. Assistíamos às aulas e apresentávamos na frente da classe o
nosso trabalho. Era bem divertido e o
conhecimento era fixado em nossa memória. Fim de tarde saía da escola de
volta para casa e voltava pelo mesmo
trajeto em direção ao Terminal Nova Esperança. Chegando ao terminal as filas já
estavam grandes e se misturavam umas às outras.
O caminho não era tão engarrafado, mas
as linhas de ônibus já eram insuficientes e não atendiam a demanda. No outro
dia tudo começava do mesmo jeito e o modo de encarar o
trajeto era sim mais um novo desafio!
Jucênio
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