Consciência
Negra
Balança a enorme embarcação
em alto mar! Imponente como um
transatlântico rasga a noite escura deslizando sobre a imensa trilha aquática.
Dos seus imundos porões ouvem-se gritos
de desespero e uivos de dor que não conseguem tocar o coração dos sanguinários
tripulantes. Ali estão amontoados homens, mulheres e crianças que foram arrancados de sua terra natal para serem escravizados em outro país. Como
mercadorias chegaram a este estranho lugar. Muitos morreram no caminho e
outros não gostariam de ter sobrevivido
depois! O sol castigava a negra pele e a
humilhação e perversidade doía na alma. O
matagal era a esperança de fuga, mas os jagunços partiam em busca do negro
fugido com se fosse um animal que tentava
escapar da morte. Sem demora traziam a presa bastante machucada! A
resistência do povo negro supreendia aos
senhores de engenho. A sinhazinha tinha pena e a ama de leite alimentava a vida
sem distinção ou escolha da cor da pele.
Ervas para curar os males do corpo. Banzo entoado no fundo da fria, suja e escura senzala. Sinhá gostou do tempero da
mucama e o sinhozinho batucava com o filho da negra Anastácia. Aos poucos a mistura parecia iminente e uma nova cor da pele surgia. Um
salto para o ar e uma mistura de dança e luta fazia subir poeira! Tristeza e
choro no pelourinho; líquido rubro sobre a
cútis negra! Zumbi ousou e formou
o seu quilombo! Resistência negra! O feijão da nossa feijoada é mais gostoso! Depois de várias leis chegou enfim a… libertação!!!
Vamos comemorar!! Somos livres afinal!! O batuque ritmado do atabaque faz o terreiro
sambar e as baianas em trajes opulentos
ditam o ritmo com os pés. Liberdade e um mundo sem direitos foi o
pagamento; vagamos a esmo sem rumo e sem identidade. As primeiras favelas, os
primeiros trabalhadores sem direitos, os
guetos este foi o preço da liberdade!
Parece que apenas o açoite nos lombos marcados é que não arde mais, mas
por dentro a pancada parece ser mais forte. O tal do preconceito nos atinge em primeira
linha e nos faz reféns das mazelas sociais. Cadê esta tal de liberdade que não nos deixa usufruir a vida
de forma plena. Por que a perseguição?
Parece que o negro ainda é uma caça em disparada pelas antigas savanas! É uma maioria negra comprimida nos limites de uma ideologia
estreita e discriminatória. O mercado de trabalho fecham as portas! Cotas
universitárias para amenizar! É preciso reagir e bradar contra os rótulos! A cultura
negra deitou raízes e segue influenciando por onde passa. É
preciso que a sociedade respeite os direitos do ser humano independente da cor
da pele e que as cicatrizes deixadas pela história sirvam de lição para todos.
Jucênio

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