Moro aqui há exatos quarenta anos e ainda lembro quando
este bairro tinha o clima bucólico semelhante a uma pequena cidade
interiorana. Havia poucas casas e o comércio era formado por quitandas e
pequenas vendinhas. No loteamento (onde moro até hoje), as ruas eram de barro;
não tinha água encanada e as pessoas utilizavam as pequenas fontes para
abastecer suas residências. Era lata d’ água na cabeça! Havia luz nas
residências e entre os poucos vizinhos da
rua, apenas alguns tinham televisão. Assistíamos todos juntos numa mesma
sala aos programas dominicais. Comprava o pão às vezes na mão do homem do
balaio. O verde era mais verde e o ar
leve e perfumado pelas flores
silvestres. O campo da bica gerou muita gente boa de bola e o do fim de linha
formou profissionais. Era um campo de onze na linha com traves de tamanho
oficial. Vi nascer a Via Regional e o
Estádio do Barradão e também vi morrer o campo e a fonte da bica. A população
era pequena. Meu pai às vezes andava até a Tabela(Pau da Lima) para pegar o
coletivo. Padarias como a Oxagriã de Sr. Rodolfo, a Quadros no fim de linha,
o Abatedouro Daniela e os Mercados: São
Miguel, Comal; Olhe Preço e Peti Preço, Edac Materiais de Construção e Dinho do
Fim de Linha representavam um comércio forte no bairro. O baba era jogado
nas ruas, no campo e em qualquer espaço pequeno ou ermo; sempre parávamos a
bola para a passagem dos mais velhos. Estudei no Afrânio Peixoto e no Eraldo Tinoco.
Lembro que no desfile da primavera tinha duelo entre as escolas particulares
San Martin (Fim de Linha) e Rosa Vermelha (Loteamento). Procissão da padroeira
do bairro na rua principal. Festa de Largo! Queima de Judas e fogueira de São
João. Doces recordações de um bairro atualmente bastante modificado. A
população aumentou e trouxe também um progresso que extirpou o matagal; escavou e soterrou a imagem simplória do
bairro. Continuo caminhando por este longínquo bairro da Estrada Velha do
Aeroporto; vendo as transformações que aconteceram nessas quatro décadas que aqui habito. Que prédios imensos construíram
na entrada do bairro! As ruas transversais não são mais de barro e no fim de
linha ainda estão o Instituto São Geraldo, o posto policial e a antiga caixa
d’água. A rua da infância mudou! Meus vizinhos mudaram. Minha vida mudou. Sei que por aqui ainda persistem as carências
e o descaso como em qualquer outro lugar suburbano. Contudo, gosto de morar
aqui e espero que dias melhores aconteçam porque meus filhos vivenciam hoje uma
parte mais urbana e crua não mais campestre e pacata como já foi outrora o nosso
querido bairro.
Por: Jucênio

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